É bom para o moral?

O dicionário Aurélio define “moral” como: O conjunto das nossas faculdades morais; brio, vergonha.

Ok! Vamos adiante!
Para aqueles que não sabem, eu trabalho legendando filmes em Closed Captions (que são aquelas legendas ocultas, apenas acessíveis a quem possui televisores com decodificador de legendas). A empresa em que trabalho (CPL – Centro de Produção de Legendas), em parceria com o Banco do Brasil, criou o projeto “Cinema Nacional Legendado” que consiste em, uma vez por mês e em sessões gratuitas, exibir no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) um filme nacional legendado, de forma a atender, especialmente, ao grande público (cerca de 12 milhões) de pessoas portadoras de deficiência auditiva.

Bem... mas o nosso papo, mesmo, começa aqui!
Com efeito de dar prosseguimento ao projeto citado, recebemos em nossa empresa uma cópia do filme “Carandiru”. Foi esta a minha primeira oportunidade de ver o longa, uma vez que não pude assisti-lo no cinema e, mais tarde,  não me interessei em locar a fita. Mas... trabalho é trabalho e, pra quem agüenta legendar os filmes do Chuck Norris... qualquer coisa é lucro!

O fato é que me surpreendi com a qualidade do filme. E, enquanto trabalhava, aproveitava pra acompanhar as histórias relatadas por aqueles que viveram naquele inferno. Até que, numa das cenas, me diverti a valer com a ex-chacrete Rita Cadillac (que fazia shows naquela casa de detenção, sendo considerada madrinha dos presos). Na cena em questão, Cadillac coloca uma camisinha numa garrafa de cerveja (de modo a instruir os presos sobre a maneira correta de se usar o preservativo) e, logo depois, rebola na boquinha da garrafa, enquanto canta o seu hit, que diz:

“É bom para o moral! É bom para o moral!”

A cena é hilária! O presos vão à loucura!
E, enquanto eu me divertia com o filme, pensava: "Cara, essa mulher é doida!"
Pobre de mim... eu não tinha visto nada!

Nesta mesma semana, tive um compromisso na produtora de vídeo onde passamos as legendas para a película. E, em meio ao trabalho, vi um grupo de caras que, acotovelando-se numa minúscula sala escura, disputavam vorazmente um pequeno monitor de 14 polegadas. Achando que fosse algum boletim olímpico, me aproximei. E, qual não foi a minha surpresa, quando consegui uma brecha em meio aquela galera em polvorosa... Não... não era nenhum salto duplo escarpado da Daiane dos Santos... e, sim, o filme pornô estrelado pela Rita Cadillac!

Gente! Eu não sou nenhum puritano. Confesso que, em minha adolescência, fui ferrenho consumidor desse gênero. E, ainda hoje, se a capa me seduz, sou perfeitamente capaz de alugar uma fita dessas, sem o menor problema. O fato é que, com o passar dos anos, comecei a preferir filmes com um pouco mais de diálogos, além dos limitados "Oh, yes! Oh, yes!"

Voltando à vaca fria, confesso que fiquei estupefato com a disposição da Rita Cadillac em fazer um filme desses. Peço que me desculpem a má palavra, mas eu pensei que ela fosse vagabunda de mentirinha. Percebi, feliz ou infelizmente, que, aos 28 anos, eu ainda conservo uma certa ingenuidade. Um filme pornô com o Alexandre Frota não me surpreende nem um pouco, pois sei que, além de boçal, ele é um tremendo gaiato. Mas, com a Rita Cadillac??? Pior é que, no filme, a coroa faz miséria: sexo oral, anal e demais acrobacias...

Fico, autenticamente, decepcionado com o ser humano quando vejo uma coisa dessas. O que mais se falta fazer por dinheiro? Fiquei sabendo que, numa das entrevistas concedidas à mídia, Cadillac afirmou que sua única preocupação, ao fazer o filme, era com a reação de seu filho (que tem mais de 20 anos). Mas que, felizmente, o filhão deu um tremendo apoio, sendo um dos primeiros a adquirir o DVD.

Agora, pelo amor de Deus, me digam vocês, amigos do Tendo a Lua: Eu sou quadrado???
Por favor, eu preciso que me respondam essa questão! Me ajudem a entender esse mundo! Em que mundo estamos vivendo???

Você, caro leitor, ficaria satisfeito em ver a sua mãe (com todo o respeito) queimando a rosca e fazendo chupetinha, em filme de sacanagem??? Desculpem... mas isso é muito pra minha cabeça!

Sai da produtora de vídeo me sentindo um pouco mais descrente e desesperançoso com relação aos valores que imperam nesse nosso mundo cão. E, ao chegar em casa, algumas perguntas ainda me assolavam:

Qual motivo faz uma pessoa descer tanto em sua dignidade?
Será que existe algum prazer secreto nisso, que eu não entenda?
Pra quem isso poderia ser bom???

Foi quando eu liguei a televisão no SBT e a própria Rita Cadillac, passando a mão espalmada pela bunda, me deu a resposta:

“É bom para o moral! É bom para o moral!”

Ela estava cantando seus sucessos(?) no Programa do Ratinho.
Agora, só resta saber: Pro moral de quem?

   Robson Cassimiro




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